JAMAIS VOLTAREI A NÚPS
Certo dia eu voltava de uma
viagem a Ziguinchor, via São Domingos, passando por Ingoré, rumando para São
Vicente onde faria a travessia do grande Rio Cacheu. Ali tinha que usar uma
balsa para assim ganhar o caminho de volta a Bafatá. Ziguinchor é a segunda
cidade mais importante do Senegal, país colonizado pelos franceses. Esta cidade
fica na região do Casamance, ao sul do país. Além da fronteira, a primeira
cidade guineense é São Domingos. A cada seis semanas íamos a Ziguinchor, pois
tínhamos duas filhas, a Márcia e a Luciane que estudavam lá em regime interno
na Bourofaye Cristian School. Além de passar o fim-de semana com as filhas,
ainda nos províamos de certos alimentos não encontrados na Guiné. Naquele dia
eu vinha só, dirigindo o Volvo da missão em que trabalhava. Aquele carro havia
sido doado pelo Exército da Suécia. Foi de grande ajuda para todos, pois
possuía quatro pneus lameiros, tração nas quatro rodas e motor a diesel. Era um
ótimo carro para aquelas estradas, péssimas, principalmente quando elas
terminavam. Abria seu próprio caminho no mato e seguia em frente. Quando sai de
Ingoré rumo ao porto da balsa, próximo a um vilarejo de nome Antotinha, de
repente surge no meio da estrada saindo do mato uma jovem senhora que
balançando os braços desesperada fazia sinal para que parasse. Como ela não
tinha nenhuma carga, pois é quase impossível imaginar uma mulher africana sem
uma carga; pensei logo que se tratava de um acidente, um filho doente talvez.
Ela se aproximou rogando encarecidamente que a levasse para longe dali. Aí eu
fiquei encabulado. Achei que ela havia matado alguém e por isso precisava fugir
dali. Não querendo me comprometer, pedi-lhe que me contasse a verdade, o que
ela tinha feito de tão grave para fugir assim. Ela me disse que nada havia feito,
mas que seu homem a procurava para matá-la. Ele não sabia onde ela estava,
porém mais cedo ou mais tarde ele a descobriria, daí a necessidade de ganhar
tempo, fugir dali, informou a tal mulher. Deixei que ela entrasse no carro como
pensei em deixá-la no porto da balsa que estava bem próximo. Ali ela estaria
segura, pois havia sempre muita gente. Como ficou sabendo que eu era de Bafatá,
a mulher disse que tinha alguns conhecidos ali e que há muito não os via.
Pediu-me que a levasse até lá, onde começaria uma nova vida e dificilmente
seria encontrada. Concordei e no caminho me contou detalhadamente a sua
história. Ela se chamava Segunda (certamente por ter nascido numa
segunda-feira). Tinha vinte e dois anos. Não tinha filhos e era da raça
Balantas. Viveu na região de São Vicente cerca de doze anos com um grupo de
Balantas que habitava ali. Aos dez anos fugiu da sua terra para não casar com o
homem a qual havia sido prometida. Na tribo Balantas, dizia ela, a criança do
sexo feminino assim que nasce já é dada em casamento. Segundo sua mãe, quando
estava grávida, principalmente depois do oitavo mês, um homem amigo de seu pai,
vivia rondando por ali sempre em volta da casa puxando assunto para demorar um
pouco mais. Esse homem tinha na época cinqüenta e oito anos, casado com quatro
mulheres e um bando de filhos. No dia que sua mãe entrou em trabalho de parto,
o homem estava ali por perto. Quando nasceu a criança e a parteira anunciou ser
uma menina, o homem gritou na área da casa "É minha prometida, é minha prometida".
O pai aceitou, é claro. Além de ser um costume da tribo, é apenas uma menina e
menina não tem valor algum. O quanto antes sair de casa melhor. Uma boca a
menos para comer. Quando ainda criança, Segunda não entendia porque certo
velhote vivia visitando a família. Entre tantas crianças ela era a única que
ele achava de fazer gracinhas. Somente bem mais tarde que veio, a saber, que
ele era seu futuro esposo. E que os feixes de lenha que às vezes ele deixava no
quintal, a raiz da mandioca trazida por ele e o garrafão de vinho, era o dote
que ele pagava ao pai para tê-la como esposa. O vinho lembra-se, ele mesmo
levava e bebia tudo. Sentado com seu pai conversando e bebendo. Tinha dia que
ele bebia tanto que não conseguia levantar-se. Era necessário que os irmãos de
seu pai o colocassem em pé, segurando-o até suas pernas firmarem. Depois o
deixava e com um leve empurrãozinho ele começava a caminhar até chegar a sua
casa. Segunda jamais se esqueceu de um cachimbo fedorento que ele usava. Quando
ela sentia o cheiro daquele "canhoto" - como eles chamam o cachimbo
-, tinha vontade de sumir dali. Quando completou dez anos as esposas daquele
homem a procuraram.
Queriam instruí-la acerca do futuro casamento.
Possivelmente dali dois anos. Ela estaria com doze anos e ele com setenta.
Falaram da cerimônia do casamento e que antes fariam um teste para saber se ela
ainda era virgem ou não. Usariam duas cabras que permaneceriam amarradas. Uma
representava a virgindade, a outra não. A que urinasse primeiro revelaria o resultado.
E somente assim prosseguiriam com o ritual. Enquanto Segunda me contava isso e
sem prestar-lhe mui ta atenção, lembrei-me de um fato curioso ocorrido nas
Ilhas dos Bijagós. Uma vez estava naquela Ilha e conversando com um amigo
bijagós, lhe fiz algumas perguntas sobre sua cultura. Ele me disse que não
sabia ao certo, mas que conhecia alguém muito entendido, que certamente me
daria às explicações. Era um senhor de idade que morava bem perto de onde
estávamos. Meu amigo disse-me: - Vamos lá agora a sua casa, pois ele deve estar
só. Vi toda sua família descer para a roça de arroz. Assim será mais fácil para
ele, dar as explicações. Chegamos a casa daquele senhor. Como meu amigo era
íntimo da família, foi logo entrando sem anunciar, e entrei atrás dele. Quando
chegamos à sala ele estava sentado em um banquinho de três pernas. No meio de
suas coxas estava presa uma menina, talvez com menos de quinze anos com seu
rosto encostado no chão e o bumbum para cima. Ele tinha em sua mão um ovo de
galinha que tentava introduzir na vagina da jovem. Assim que chegamos, ele a
soltou. Ela desapareceu pela porta dos fundos. Ele explicou que estava fazendo
o teste da virgindade. Do resultado do teste dependeria o seu casamento ou não
com ela. Voltando à história de Segunda. Depois de tudo que viu e ouviu a seu
respeito tomou uma decisão. Fugiu de casa sozinha e foi morar na região de São
Vicente com aquele grupo de Balantas. Três anos mais tarde ela ficou sabendo,
através de amigos, que aquele senhor à quem estava prometida, falecera.
Continuou vivendo ali como agregada na casa de uma grande família. Fez muitas
amizades. Não tinha o porquê se mudar dali onde ela fora tão bem recebida. Oito
anos depois apareceu na vila um forasteiro que iria mudar totalmente sua vida. "Homem
de corpo bem feito, no vigor de sua juventude, distribuindo largos sorrisos
exibindo sua dentição branca e perfeita. Aquele era o homem de minha
vida", disse Segunda. Caída de amor não tinha olhos para mais ninguém. Um
sentimento intenso se apoderou dela, mobilizando todas as suas energias e
faculdades pessoais. Aquela grande paixão estabeleceu prioridades absolutas na
vida e no comportamento de Segunda, ao ponto dela se sentir materialmente
inclinada a viver e a agir em função daquele homem. Chegou a deixar de comer.
Seus amigos vendo a loucura que Segunda estava prestes a cometer, lhe
aconselhavam: "Segunda, tome cuidado. Esse homem não é Balantas, é da raça
Felupes. Esta gente não presta. Você irá sofrer muito se ficar com ele".
Mas, cega de amor não via nada além de felicidades. Chegava a pensar que seus
amigos sentiam inveja dela e por isso queriam atrapalhar. Enfim, já estava
perdida. Voltar atrás estava fora de cogitação. Acabou ajuntando-se com aquele
homem e foi-lhe sua esposa. Passou duas semanas que lhe pareceram uma
eternidade de gozo e felicidade. Pois, aquele homem com seus carinhos e
bajulações a levava à glória e ela dizia consigo mesmo, "Realmente sou
feliz. Este é de fato o homem da minha vida". De repente ele se dirigiu a
ela e disse: "Segunda, gostaria imensamente que você fosse comigo até a
minha tabanka, conhecer o meu povo". Ela respondeu: "Eu irei. É justo
que eu vá, afinal é sua família. Estamos de favor aqui, quem sabe lá
construiremos nossa casa e criaremos nossos filhos...".
Eles se despediram
dos amigos, e empreenderam então a longa viagem. Apesar de ser perto
geograficamente, com a dificuldade de transporte e os caminhos precários o
casal demorou quase um mês para chegar ao destino. De Apilho, um vilarejo às
margens do Rio Cacheu, seguiram a pé pela trilha dentro da floresta até
chegarem a uma tabanka por nome Núpis. Lá numa grande clareira estavam
dispostas duas fileiras de palhoças, habitações construídas com adobe e coberta
de palha. Uma trilha tortuosa levava até um trapiche no Rio Cacheu, feito de
sibi, uma palmeira resistente, a mais de quarenta anos, onde de vez em quando
algum barco se aventurava atracar à procura de coco, ovos, óleo de palma, etc.
Segunda logo percebeu que a recepção não foi nada calorosa. O povo a olhava de
soslaio, dizia frases curtas em uma língua desconhecida e apontava para ela
"esticando o beiço" em sua direção. Até o homem que ela tanto amava e
que ele mesmo muitas vezes lhe havia jurado amor eterno, agora se mostrava
hostil, de pouca conversa, distante, evitando-a ao máximo. Tudo começou após
uma pequena reunião que aconteceu entre os homens daquela tabanka, assim que
chegaram ali. À noite foi realizada uma grande cerimônia que entre o sacrifício
e todo o ritual demorou várias horas. Porém, Segunda não foi convidada. Aliás,
havia sido proibida de participar. Não devia nem sair da casa naquela noite,
lhe advertira o marido. Ao redor de uma fogueira, única fonte de luz em meio
daquele mundo de trevas, o povo dançava ao som dos tambores. Sozinha naquele barraco
escuro, deitada sobre uma esteira, Segunda meditava. Como era feliz em São
Vicente. Como havia sido estúpida não ouvindo os conselhos dos amigos. Chegou a
lembrar de sua infância na casa dos pais. Sentiu uma ponta de saudade. Se fosse
possível trocaria de situação. Ali estava acontecendo algo muito estranho que
ela não conseguia entender e ninguém lhe dava explicações. No dia seguinte seu
marido lhe disse: "Vá à casa de Mossó e traga de lá um pedaço de carne e
prepare o nosso almoço". Ela saiu em direção à casa de Mossó, que ficava
um pouco mais distante das demais. Ao chegar lá observou que sobre um jirau de
bambu estava certa quantidade de carne coberta com uma esteira. Lá fora apenas
duas crianças entre oito e dez anos, com paus nas mãos estavam a enxotar os
urubus que insistiam em pousar no quintal em busca de alimentos. Um pequeno
balaio, de tampa, chamou a atenção de Segunda, pelo fato de uma quantidade
enorme de moscas voava em sua volta. Para satisfazer sua curiosidade ela se
aproximou do balaio e ergueu a tampa para olhar o que continha em seu interior.
Por alguns minutos ela ficou petrificada, parecia que o sangue gelava em suas
veias. Dentro daquele balaio estava a cabeça de um homem. Segunda não teve mais
dúvidas. Aquela carne era humana. Aquele povo era canibal. O sacrifício da
noite anterior, a festa, a proibição de ela sair de casa. Tudo se encaixava.
Retornando para casa disse ao marido que não havia nenhuma carne. Ele apenas a
observou atentamente. Seria aquilo um teste? Teria sido reprovada? O jeito
seria aguardar. O tempo diria. Mais tarde outra reunião foi convocada com todos
os homens da tabanka. Segunda andava de um lado para o outro tentando disfarçar
o pavor que estava sentindo. Quando de repente algo aconteceu. Entre as pessoas
que andavam por ali, reconheceu um rosto amigo. Era um balantas caçador que
viveu um tempo em São Vicente e a conhecia muito bem. "Então, o que fazes
aqui?" Segunda indagou ao seu amigo. Estou há três anos em uma tabanka de
balantas a alguns quilômetros daqui. Sou caçador e estou à procura de alguns
serviços. "E você, que faz aqui?" lhe perguntou o caçador. Segunda
revelou que estava casada com um felupes há quase dois meses. Segunda percebeu
que o semblante de seu amigo mudara. Ele se aproximou de seus ouvidos e lhe
disse: "Vou te contar um segredo. Este povo é canibal". Ela disse que
já descobrira isso. "Então vou lhe contar algo mais atemorizante. Na
reunião desta tarde ficou decidido que esta noite eles lhe matarão e comerão a
sua carne". Segunda ficou triste. Sabia desde então que dificilmente
conseguiria escapar dali, porém seu amigo lhe informou da existência de um
barco encalhado no Cacheu, aguardando a subida da maré para retornar às águas
que lhe permitirão navegar. O amigo lhe disse: - Eu virei até a sua casa e
ficarei conversando com o povo. Enquanto isso, discretamente, você amarre em
minha bicicleta o mínimo de carga que você tiver... As águas deverão subir por
volta das cinco horas da tarde. Ao meu sinal você se oferece para me acompanhar
na saída, e eu te ajudarei a fugir. O plano correu perfeitamente bem. Próximo
das 17 horas o balantas olhou pausadamente para Segunda e disse para o povo da
casa: - Bom, tenho que ir. Já está ficando tarde. A moça imediatamente disse: -
Eu lhe acompanharei até à saída. E ambos saíram caminhando devagarzinho. Na
primeira curva da trilha os dois montaram a bicicleta e pedalando rapidamente
alcançaram o local onde o barco estava. Dentro de segundos os balantas
transpuseram o trapiche e se jogaram dentro do barco. Em poucas palavras o
caçador explicou e rogou aos barqueiros que salvassem aquela mulher. Eles a
esconderam atrás de uma pilha de sacos de coco e antes que o barco zarpasse,
surgiu à margem do Cacheu cerca de vinte ou trinta felupes, todos armados com
lanças, arcos e flechas, e instavam com o caçador, querendo a todo custo a
mulher que havia fugido. O balantas insistia com eles que ela havia voltado
desde a curva do caminho, e que estava ali apenas para mandar um recado para
alguém em São Vicente. A insistência dos felupes foi tanta que dois deles
adentraram ao barco e se puseram a procurar por Segunda. Ao se aproximarem do
local onde ela estava escondida, o capitão do barco lhes avisou... Ali tinham
sacos com ovos e se fossem quebrados eles pagariam o prejuízo com a vida.
Vários marinheiros surgiram e eles saíram da embarcação. O motor roncou. O
barco ganhou o leito mais profundo do Rio Cacheu e tomou rumo de São Vicente,
sob uma chuva de flechas. Os marinheiros fecharam as escotilhas e seguiram
viagem rio acima, chegando ao seu destino, na outra banda do Cacheu, já tarde
da noite. Segunda desceu do barco. Assustada e transtornada com tudo. Seguiu
correndo estrada à fora, rumo ao vilarejo de Antotinha. Quando o Sol raiou, ela
estava exausta, com sede e fome. Escondeu-se no mato, ficando a espera de uma
oportunidade para escapar de uma vez dali. Foi quando afinal e
providencialmente eu passava por ali. No caminho, eu vendo todo aquele
desespero, a falta de paz naquela alma, logo lhe apresentei Jesus Cristo, o Salvador.
Deus lhe abriu o entendimento e ela aceitou o Senhor como o seu único e
suficiente Salvador. Vi rolar daqueles olhos outrora tristes, duas lágrimas de
gozo e de paz. Porque Jesus lhe havia perdoado todos os seus pecados e lhe dado
segurança e esperança. Chegando a Bafatá reunimos os cooperadores da Igreja e
expus o acontecido. A nova irmã foi levada para ser hóspede de uma mulher
balantas que era cristã e membro da Igreja em Bafatá. Ainda boquiaberto com
tudo que havia ouvido, os irmãos cooperadores disseram que apesar da proibição
do Estado da punição empregada, ainda existiam grupos isolados na selva que
praticavam o canibalismo. O diácono Pedro, nosso cooperador, me disse: - Irmão,
eu sou natural de São Vicente. Já vivi em Apilho e outras tabankas daquela
região. Posso confirmar, inclusive, existem casos que eu mesmo presenciei.
Naquela região vivem além de grupos balantas, os kassangas e mais dois tipos
diferentes de felupes. Os que são canibais e os que não são. Convidei o irmão
Pedro para pregar no culto da irmandade no domingo, e dar testemunho de casos
de sacrifícios humanos seguidos de canibalismo, para sensibilizar a Igreja e
despertar o povo para combater, com a Palavra de Deus, essa barbárie.

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