quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

HISTÓRIAS DE BAFATÁ (ENTREVISTANDO RÉGULO OCANTE ZABANI)

ENTREVISTANDO UM REI






“Os povos têm costumes diferentes”.



“Os povos têm costumes diferentes”.

Lembro-me de um homem que conheci na capital da Guiné-Bissau. Ele era natural da Ilha de Pecixe. Possuía trinta e três esposas, fora as amantes. Naquele país o poder de um homem é medido pelo número de esposas que possui. Em 1987 quando morava em Bafatá decidi  entrevistar aquele homem.

Peguei meu gravador. Fui procurá-lo, precisava registrar os detalhes.

As viagens no território guineense eram muito difíceis. Dificílima até, dependendo para aonde se ia quase impossível. 

Muito das vezes o viajante era compelido a jogar-se ao solo, vencido pela exaustão. Se a provisão de alimento e água não fosse suficiente, com certeza teria que provar um cardápio bem diferente do costumeiro.

Quando decidi deixar Bafatá rumo a Ilha de Pecixe, do oeste para o leste do país, já sabia que seria muito difícil. Alguns negativistas chegaram a prever que eu seria devorado pelos enormes crocodilos. Outros relatavam casos de canoas viradas por hipopótamos, justamente no lugar que eu teria que passar.

O desejo de conhecer mais acerca daquele homem interessante, era tão grande que me cegou para as dificuldades que poderia enfrentar. Aliás, era a primeira vez que eu iria entrevistar um rei. Valeria a pena, sim. Quantas vezes eu viajei por

motivos menos importante e arrisquei caminho até alcançar o objetivo.

A primeira etapa, de Bafatá a Bissau, a capital da Guiné, fiz de moto. Tudo correu bem, apesar da carga que me obrigava a parar várias vezes para ajustá-la. Sempre tinha que levar um galão extra de gasolina, outro de água além da barraca, colchonete, panelas, alimentos, roupas, remédios, etc.

Uma vez em Bissau fui até ao Porto das Canoas sondar a

possibilidade de alugar uma para seguir até a Ilha de Pecixe. Encontrei um pequeno grupo de homens, talvez uns oito, e apenas três canoas atracadas. Conversando com alguns sobre a viagem, dois deles se mostraram interessados. Disseram-me que a canoa deles era ótima, que tinham experiência até em mar alto, e que o trajeto era bem conhecido.

Apesar da crise que o país enfrentava com a falta de combustível, eles estavam dispostos a remar. Mesmo assim, afirmavam que a viagem seria rápida. Combinamos então a saída para o dia seguinte, às 5 horas, aproveitando a vazante da maré.

Quando ia me retirando um deles disse-me que eu teria que pagar metade do combinado, caso contrário ele alugaria a canoa para outro que aparecesse. 

E agora, arriscaria ser enganado ou, de perder a viagem tão esperada? Afinal ali somente havia três canoas e eles que se dispuseram em ir até à Ilha de

Pecixe. Paguei então fui para o local onde estava hospedado.

Passei a noite quase toda acordada pensando naquela viagem. No outro dia um amigo holandês me levou em seu Land Rover até próximo ao Porto das Canoas. Deixou-me ali e retornou para sua casa enquanto eu caminhava até o cais. Ao chegar fiquei espantado ao ver uma multidão de mais de seiscentas pessoas e quase cento cinquenta (canoas).

No escuro os homens pareciam todos iguais e as canoas tinham o mesmo formato. O povo andava de um lado para outro, uns puxando cabritos pela corda, outros com porcos nos braços, frangos amarrados pelas pernas pendurados em varas.

As mulheres conduziam enormes cestas na cabeça e crianças amarradas às costas.

Já estava quase desistindo quando ouço alguém chamar.

— Tuga, tuga, vamos que a maré está baixando. A palavra tuga se traduz por colonizador, mas eles a usam para identificar o branco.

Apesar de tudo parecer igual para mim, eu era completamente diferente para todos. Iniciamos a viagem. As primeiras horas da manhã foram muito agradáveis. Assistimos ao nascer do Sol. Foi um espetáculo deslumbrante. Assim que o Sol despontou, por alguns minutos, as águas do mar se coloriram de um vermelho sanguíneo. Soprava uma brisa suave. As gaivotas sobrevoavam a canoa enquanto os

golfinhos a acompanhavam fazendo seus malabarismos. O capitão e seu ajudante que diziam se chamar Paxana e Propana eram filhos do mesmo pai, porém de mães diferentes.

Eles me contaram cada história incrível de quando estiveram na guerra contra os portugueses. Havia na canoa mais quatro rapazes contratados para ajudar no remo. O esforço foi tão grande que sobrou para mim. Tive que remar também. A viagem durou dezesseis horas. O calor, de quarenta a quarenta e cinco graus centígrados, ficou quase insuportável e a umidade do ar chegou aos cem por cento. Fizemos apenas duas paradas.

A primeira parada foi no porto de uma ilhota onde havia algumas famílias de pescadores. Todos estavam completamente nus. Alguns consertavam redes enquanto outros fabricavam canoas de tronco. As moças mexiam nas panelas de barro sobre uma trempe de pedras. As mulheres pilavam grãos.

Uma criança defecou bem próxima a uma mulher que cozinhava algo em seu “fogão” de três pedras. Quando o menino se levantou a mulher, com uma cuia, jogou água em sua mão passando-a no bumbum da criança. Em seguida voltou a mexer a panela com uma colher de pau.

Os companheiros de viagem se embrenharam no mato a procura de vinho para beber. Eu achei uma sombra de um frondoso cajueiro. Quando pensei em descansar ali, um bando de crianças se aproximou, olhando-me atentamente.

Tentei um diálogo, porém sem sucesso. Como elas me olhavam o tempo todo sem falar nada, tentei oferecer um pacotinho de balas que se encontrava em minha bolsa. Ao abaixar para pegar as balas, elas se assustaram, saindo correndo, chorando e

gritando. A única que ficou fez xixi ali mesmo e seus joelhos batiam um no outro.

Quando prosseguimos a viagem contei aos companheiros o que acontecera. Um deles esclareceu o fato. Era costume entre certas mães dizer aos filhos “se você não fizer isto, o branco vem te pegar”.

Fora mais quatro horas de suplício sob um Sol causticante até a próxima parada. Um porto infestado de mosquitos ávidos por sangue. Mal colocamos os pés em terra já nos atacavam. Tínhamos que estar o tempo todo batendo um pano no corpo. Notei que alguns moradores daquele lugar pareciam fantasiados. Fiquei sabendo depois que era apenas uma proteção. Eles fazem um “caldo” com o estrume do gado e o aplicam sobre a pele. Seco, ele forma uma crosta que impede a picada dos mosquitos.

Naquele lugar fomos bem recebidos pelos moradores. Um senhor nos convidou para entrar em sua casa e nos apresentou sua família começando pelas esposas. Uma senhora que aparentava

ter cinquenta anos era a sua primeira mulher e dona da casa.

Depois veio a segunda, a terceira, quarta e por último uma menina

com onze ou doze anos. Esta seria a quinta esposa. Depois foi a vez dos filhos. Ele dizia “este eu pari com aquela… este outro eu pari com esta...” e assim até apresentar todos os seus rebentos.

Ofereceram-nos água fresca. Os homens travaram uma conversa animada em uma língua que eu não entendia nada do que falavam. Fiquei, só, na área da casa, sentado em uma esteira tentando descansar.

Uma menina, cerca de oito anos, chegou perto de mim e estava interessar-se conversar. Ela tinha um penteado, com várias trancinhas, muito bem trabalhado.

Eles observam atentamente os cabelos lisos que são uma grande novidade. Existem pessoas que nunca viram ninguém de cabelos lisos. Como os macacos têm os pelos lisos, para eles nós parecemos macacos. Eu disse-lhe: bo sedu badjudaziña bunitu (você é uma mocinha bonita). Ela respondeu: bo sedu fio (você é feio). Indaguei: Pabia di ke (porquê?). A resposta: bo sedu suma sancho (você parece

um macaco). Ela tinha certa razão.

 

Na terceira etapa da nossa jornada, de fato passamos pelos bandos de crocodilos. Eles pareciam troncos de árvores flutuando sobre a água. Mais adiante uma preguiçosa família de hipopótamos se refrescava deixando apenas o nariz e o fio do lombo fora d’água. Eu mesmo não os teria notado se não, fosse alguém da canoa que gritava... “Pis kabalo, pis kabalo! (peixe-cavalo, peixe

cavalo)”, forma como eles chamam o hipopótamo.

Finalmente chegamos a um porto. Fui informado estarmos na Ilha de Pecixe. Eram 22 horas. Para chegarmos ao vilarejo Fante ainda caminhamos vários quilômetros. Acampamos e ao amanhecer fiquei sabendo que poderia ter feito a viagem por terra, muito mais curta e menos cansativa, pois a ilha de Pexixe ficava não muito distante do continente. 

Cheguei afinal na casa da pessoa quem eu procurava. Fui muito bem recebido e fiquei hospedado ali. Ele se dispôs a contar um pouquinho de sua história.

 

 

O REI SE APRESENTA



Meu nome é Okamte Zabane. Sou natural da Ilha de Pecixe, de família real. Herda-se a “reinança” através da linhagem materna.

Em 19 de outubro de 1955, com apenas 21 anos e sem muita experiência, eu fui consagrado Rei da Ilha de Pecixe. O Estado me concedeu um conselheiro. Seu nome era Manoel da Silva que reuniu certos homens e decidiu que deveria construir uma casa nova com todo o conforto para o régulo Okamte pudesse reinar com toda liberdade. Régulo é o nome que dão ao rei de uma pequena nação.

Não me foi permitido ocupar a antiga casa real. Segundo o conselheiro, a casa estava velha. Eu teria a minha própria casa. Durante todo o tempo da construção também fui proibido de ver o que estava acontecendo.

Somente após pronta tive a permissão de entrar nela. Na sua inauguração, seguida da posse, houve seis dias e seis noites de festa. Havia muita carne, bastante vinho, música e danças.

Comecei então a reinar. Meu poder era absoluto. Eu mesmo compunha as leis que regia aquele povo. Claro que as compunha conforme bem me parecia, facilitando sempre para o lado da casa real. Escolhi a dedo todos os meus ministros, homens feiticeiros de forma comprovada. O critério usado na avaliação e escolha foi observando o grau de maldade de cada um, inclusive o requinte de crueldade usado em suas obras de feitiçarias.

Foram convocados os soldados para a guarda da Ilha. A guarda pessoal do régulo foi composta de jovens denominados “rapazes do régulo”. Eles estariam em toda a parte onde quer que o régulo se encontrasse. Fora e dentro da casa, garantindo assim a segurança pessoal, para que o régulo não fosse molestado.

Os despenseiros também foram chamados. Homens que tinham a obrigação de prover toda sorte de alimentos para a despensa real. Tinham o poder para tomar animais onde quer que eles se encontrassem de modo a não faltar a melhor carne na mesa abastada do régulo. Além do vinho nacional entrando em forma de tributo, os despenseiros mandavam vir da Europa uísque e conhaque da melhor qualidade.

Entre os anos de 1955 a 1966 eu tomei trinta e três mulheres para esposas, além de inúmeras amantes, pois tinha todas as mulheres que eu queria. Era só mandar buscar que elas tinham que vir. Sem contar as jovens que eram levadas pelos próprios pais, que escolhiam entre as mais belas as apresentavam à porta da casa real, onde rogavam para as aceitarem.

Foi construído um pavilhão somente para as mulheres. A cada cinco

compartimentos tinha seu próprio quintal. Havia até uma maternidade para a casa real. Constantemente havia mulheres gestantes as quais eram bem tratadas até a hora do parto. Depois a criança era levada pelos feiticeiros que lhe dariam cuidados especiais, principalmente se fosse do sexo masculino e somente voltava à mãe para a amamentação.

Nenhuma forma de assistência pós-parto era dada para as mulheres, nem alimentá-las era permitido. Ficavam à mercê da própria sorte. Se não fosse a compaixão de seus familiares em levar-lhes algo para comer, pereceriam de fome, com certeza.

Tudo estava em minhas mãos. Cada cerimônia eu decidia tudo. Saíamos para algum “choro” importante (velório ou festa de aniversário de morte de alguém), tomávamos conta da estrada. Todas as esposas, alguns filhos, a guarda pessoal, alguns soldados, os ministros... Enfim, uma multidão.

Quanto ao castigo, muitas vezes eu fazia questão de aplicar pessoalmente, para ter certeza que o infeliz recebeu tudo o que ele merecia. Por vários anos em que eu vivia em toda aquela glória, não conheci ninguém mais poderoso que eu. Sim, eu me sentia o próprio Deus. Nos julgamentos de questões entre o povo, eu dava razão a quem queria, mesmo sabendo que a pessoa estava errada. O que estava certo tinha que sofrer o dano.

Na década de 60 com o movimento para libertação da Guiné do

colonialismo português, por motivos políticos, fui preso por um tempo. Minha vida começou a mudar completamente.

Eu não sentia paz. Minha consciência pesava dia e noite. Lembrava-

Me de quanto sofrimento eu havia causado para aquelas mulheres.

Quantas mãos por mim arrebentadas pelas palmatórias, dos animais

arrebatados de seus donos, muitas vezes eram o único animal que possuía, ainda assim, sem piedade, eu os tirava para não faltar carne na minha mesa.

Lembrava-me das feitiçarias. O quanto delas praticadas ao longo

dos anos no afã de conseguir tudo o que eu desejava. No ano de 1966 eu tive um encontro real com Jesus Cristo, o verdadeiro Rei. Rendi-me totalmente à sua vontade. Ele perdoou todo o meu pecado Transformou a minha vida. Libertou-me daquela escravidão em que eu vivia. Somente, então, conheci a verdadeira paz.

Como o meu reinado decadente já estava no final, não me restava

mais poder algum. Minha glória terrena havia passado. Minhas esposas aproveitaram a ocasião e me abandonaram uma a uma. Restou-me apenas uma que teve uma experiência maravilhosa com Deus. Perdoou-me e ficou ao meu lado.

Hoje eu não tenho nada além deste casarão vazio e escuro. Mas

tenho Jesus em minha vida. Gozo a verdadeira paz. Deito e durmo tranquilo. Tenho certeza que um dia terei a verdadeira glória com o Senhor.



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