sexta-feira, 11 de setembro de 2020

HISTÓRIAS DE BAFATÁ



GRANDE FANADO
         circuncisão       

São sete horas da manhã, hoje é uma sexta-feira. Já estamos em novembro de 87, no final da estação chuvosa. Aqui na Guiné-Bissau este cantinho gostoso da África. A chuva cai quase diariamente de maio a outubro, produzindo um enorme lençol verde em toda a savana, ornamentando-a com flores silvestres e belas aves exóticas.
A região de Bafatá é "Chão" das tribos muçulmanas Fulas e Mandingas. Na nossa rua o movimento é incomum desde a madrugada, deixa antever que algo está para acontecer. Talvez uma cerimônia importante seguida de festa.
As mulheres africanas estão chegando a todo o momento, exibindo seus "panos novos" e os cabelos tecidos formando penteados complicados. As bailarinas trazem chocalhos em volta da cintura e dos tornozelos. Os jovens e senhores chegam com seus tambores.
Desde a madrugada ouvíamos o barulho dos pilões. São as mulheres preparando o arroz, a mancarra e o "xebem". Elas pilam em três ou quatro para cada pilão, produzindo um som cujo arranjo musical foi composto, segundo eles, pelos deuses africanos.
Os movimentos que uma mulher faz ao levantar e baixar a mó do pilão leva o seu corpo a obedecer ao compasso da música, produzindo assim uma dança perfeita. A mulher africana não necessita aprender a dançar, ela já nasce sabendo.
Traz esse conhecimento desde a sua infância. Muitas e muitas vezes ainda no ventre da mãe ou amarrada às suas costas ela dançou, ou ouviu aquela música.
Está chegando a nossa casa o jovem Kebá, meu professor da língua Fula. Kebá é um moço talentoso. Possui grande conhecimento nos usos e costumes de sua tribo. É muçulmano praticante e professor da Língua portuguesa na escola da cidade.
Com muito jeito — para Kebá não notar a minha curiosidade - lhe faço uma pergunta objetiva: então, o quê está acontecendo na casa do vizinho?
Ele me responde:
— Não é nada. É apenas a festa de Mariama!
De início pensei logo que se tratava de aniversário. Mariama tinha apenas seis anos, era uma menina esperta e sadia. Quantas vezes ela ia até nosso portão e ficava conversando conosco, uma criança normal que gostava de brincar como as outras crianças e fazer de tudo relativo à sua idade.
Alguém já havia dito-lhe naquele dia: esta festa toda é para você. A pessoa mais importante, hoje, é você. Ela corria de um lado para o outro trajando seu vestido novo, meio sem jeito. Mariama sempre usava apenas trapos imundos, revelando a pobreza em que vivia.
No terreiro, espalhadas pelo chão, esteiras de juncos, várias cabaças cortadas ao meio servindo de tigelas continham certos alimentos, além de garrafões de vinho de caju. Enfim a "mesa" do banquete estava posta.
De repente ouvem-se gritos estridentes de dor profunda. Uma criança gritava e chorava em simultâneo. Então seus gritos foram abafados pelo rufar dos tambores e o chocalhar das danças. Era o ponto culminante da cerimônia. Daí em diante ouviam-se os adultos conversando e rindo, demonstrando satisfação e alegria.
O que estaria de fato acontecendo ali? Estaria aquela gente fazendo algum sacrifício humano? Tínhamos ouvido histórias de sacrifícios humanos seguidos de canibalismo entre as tribos africanas. No entanto, Kebá que percebia a nossa inquietação, disse:
— Foi apenas a Mariama que lhe botaram o 'fanado.
 'Fanado? Sim. O que eles chamam Pequeno Fanado nada mais é que a circuncisão feminina, algo que acontece com todas as crianças muçulmanas do sexo feminino entre quatro e seis anos. Como é feito isto? Pergunto. Uma "mulher grande" — senhora de idade, com muita responsabilidade e experiência, lanceta com um bisturi de fabricação caseira, o clitóris da criança.
A finalidade principal de se botar o fanado na menina é para que elas não tenham prazer sexual, facilitando assim a submissão total ao homem, no caso, o seu marido.
O dever da mulher em certas tribos africanas é satisfazer sexualmente o seu marido obedecer-lhe em tudo, cuidar do campo de arroz, da horta, da casa, etc. Dar-lhe bastantes filhos e criá-los.
As mulheres ao casar, seus bens passam a pertencer ao marido, tendo posse somente de seus colares e brincos feitos de conchas marinhas, além do "pano" que envolve seus corpos da cintura para baixo. Da cintura para cima não é precisamente necessário usar roupa alguma. Os seios à mostra servem para facilitar a avaliação masculina.

A menina africana entre dez e onze anos, quando começa a despontar seus seios sabe-se que já está pronta para casar. O homem a quem ela foi prometida, procura a família dela para providenciar a cerimônia de casamento. Por outro ângulo, os seios volumosos demonstrarão capacidade para amamentar os filhos, despertando interesse em homens para tomá-la por esposa, caso não seja prometida.
O Grande Fanado
Quando a jovem africana das tribos muçulmanas atinge de onze a dezesseis anos é levado ao Grande Fanado. Um grupo de menina vai para a selva, num lugar secreto previamente escolhido por adultos, longe dos olhares curiosos dos homens e de algumas mulheres que de algum modo escaparam do Pequeno Fanado.
É possível circuncidar jovens na idade adulta. Se esta se apresentar para o Grande Fanado e comprovado por exame prévio que não possui a cicatriz no clitóris, então ela é circuncidada ali mesmo, na hora.
Ao chegarem à clareira sagrada para as cerimônias do Grande Fanado, as jovens têm que se despir completamente. Suas roupas são bem guardadas, pois são impedidas de sair dali antes do término do evento.
Este segundo e último fanado demora vários dias para ser realizado. Durante todo o tempo as candidatas permanecem nuas. Uma vez ali não há lugar para arrependimento.
Ali elas aprendem como se portar sexual com o futuro marido, como obedecê-lo em tudo, agradando-o da melhor maneira, e, muitos conselhos para fazer delas esposas ideais.
Tudo o que fazem ali tem que ser dentro de um segredo absoluto. Não se comenta nada com ninguém, a não ser com outra mulher comprovadamente circuncidada.
Antes de saírem dali são feitos certos juramentos de que tudo o que aconteceu não vai cair nos ouvidos de homens ou mulheres não circuncidadas.
Para um estrangeiro obter certas informações fica mais fácil usando o sistema do "soko di bas". Esta expressão da língua crioula quer dizer soco em baixo que nada mais é do que alguém com o punho fechado, levando-o rapidamente em direção ao baixo ventre de outra pessoa, que para se defender segura de imediato aquela mão fechada que logo se abre passando assim o dinheiro da propina.
Com um "soko di bas" de dez dólares é possível conseguir boas fotos, filmagens, entrevistas e até ouvir esses tão guardados segredos.
Somente após terminado todo o ensinamento é que as meninas recebem suas roupas, panos para a cabeça, miçangas de conchas, provas de que já participaram do Grande Fanado.
Voltam para suas casas, festejam com seus familiares, se sentem importantes e superiores perante aquelas que ainda não foram ao Grande Fanado.
A aula de Kebá transformou-se em exposição da cultura e costumes de sua tribo. Ele se foi. Seguiu seu caminho. 
Eu fiquei só a imaginar. Aquela inocente criança num quarto escuro, sozinha, sofrendo grande dor. Um pano apertado entre as pernas para não sangrar até a morte, com medo, sem nada entender. Enquanto isso, no terreiro, seu povo dançando, comendo e bebendo, cantando feliz, certo de ter feito e participado de algo bom e correto.

O incrível é pensar que em pleno século XXI ainda existem barbaridades como estas, cometidas contra mulheres e crianças, e o mundo evoluído em que vivemos parece contemplar tudo em silêncio porem sem saber como fazer para reverter este triste quadro que ainda perdura.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

HISTÓRIAS DE BAFATÁ (O PEQUENO PASTOR)

O PEQUENO PASTOR



Naquela manhã ensolarada, de domingo, o culto da irmandade começou com muita unção do céu. O louvor cantado em várias línguas havia levado a igreja a um êxtase glorioso.
Duas pessoas caíram ao chão se rendendo totalmente ao Senhor Jesus. Outros dançavam de gozo e poder do Espírito.
A igreja nascida no chão do povo muçulmano era composta quase cem por cento de povos vindos do animismo. A maioria era balanta seguido dos papéis, manjacos, mansoancas, bijagós e uma irmã fula. Várias nações que Deus, no seu amor, as transformou em uma só tribo, a do Senhor Jesus.
O irmão diácono Pedro Diniz pregou naquele dia na língua creola. Baseado em II Crônicas 28: 3 — “Também queimou incenso no vale do filho de Hinom, e queimou a seus filhos no fogo conforme as abominações dos gentios...”.
Discorreu brilhantemente aplicando o texto à realidade africana. Testemunhou o que Deus fez na vida da irmã Segunda. Desde o seu malfadado casamento até a fuga providencial e posteriormente a sua salvação em Cristo. E o povo jubilava, brados de aleluias e glórias a Deus ressoavam a todo o momento.
Pedro Diniz fora um “bakiadur” — uma categoria de pastor de vacas — na sua infância. Vivia correndo atrás de ídolos, tentando descobrir uma maneira de herdar um grande “Irã” — nome dado a ídolos. Seu pai sentia até orgulho dele por causa disto. Vivia falando: “Um dia ainda te levo na Kobiana”, lugar famoso naquela época pelos seus cultos aos “Irãs”.
Certo dia o irmão Pedro Diniz fora ferido pelo estilhaço de uma mina e levado para Apilho nas margens do Cacheu, para recuperar dos ferimentos em casa de um parente. Na época da guerra as famílias viviam constantemente se mudando de região para se protegerem.
Apesar de ser advertido severamente pelo primo, de que não deveria forma alguma  se relacionar com os vizinhos felupes, pois eles são: “Nhamidur di pekadur” (a expressão creola quer dizer “comedor de pecadores”), dizia seu primo. Pekadur foi introduzida na língua creola pelos padres portugueses que, na época da colônia, dizia-lhes que todos eram pecadores, não importando a tribo ou a cor.
O menino Pedro recuperou de seus ferimentos e voltou à lida de bakiadur. Apesar de já saber que os felupes eram canibais, Pedro para vencer a grande solidão que sentia no campo, arriscava, ocasionalmente, amizades com baquiadores felupes. Durante as longas horas do dia em que os pequenos pastores passavam juntos, seguindo o gado das famílias, havia muitas trocas de conhecimentos e segredos culturais. A afinidade entre meninos de raças diferentes foi se tornando cada dia mais estreita, a ponto de muitas vezes Pedro se passar por menino felupes.
Os locais consagrados ao sacrifício e culto aos “Irãs” felupes, estavam espalhados em vários pontos da floresta. Estes locais eram muitos bem guardados por vigias para evitar a penetração de intrusos.
Mas a curiosidade dos “baquiadores” era tamanha a ponto de espreitar dias a fio até aproveitar um descuido do vigia, quando penetravam então  no recinto para observar o que de tão importante era guardado ali.
Pedro nos informou que além da tenda, confeccionada de tecido vermelho, para proteger o “Irã”, havia vários objetos que eram usados na hora da cerimônia, mas o que mais  chamava a atenção eram os ossos da parte craniana de humanos que os sacerdotes (feiticeiros) usavam para beber vinho como se fossem taças.
O “Irã” pode ser qualquer coisa desde que consagrado para aquele fim. É confeccionado com palha, pedra, madeira, chifre, carranca, etc. O importante é manter o máximo de respeito por ele e ele possuir seu guardador que irá transferir a guarda em herança a um parente que se mostra com vocação para aquele serviço.
Certo dia, movido pela curiosidade, eles foram chegando com seus rebanhos, devagar como quem não quer nada, até às cercanias da casa grande onde residia o régulo felupes. Observaram que a casa além de grande era construída longe do rio. No entanto, uma grande vala, aberta manualmente, ligava o interior da casa real ao leito do rio. Relatavam os meninos felupes de vez ou outra que havia um entra e sai suspeito de canoas e que eles nunca haviam sabido que se tratava. Alguns testemunharam que garotos como eles que haviam entrado naquela casa uma vez, nunca mais foram vistos.
Mais tarde quando Pedro já estava adulto, ele soube que se um “Irã” da tribo felupes exigisse um sacrifício humano, e se a pessoa não tivesse nenhum estrangeiro ou intruso aventureiro a quem pudesse lançar mão, era obrigado a oferecer um de seus próprios filhos.
A vítima era levada à casa real, e de lá saía de canoa para o altar e após imolado, ao término da cerimônia, voltava de canoa em forma de carne para o banquete real. A gordura que houvesse na carne era
separada, defumada e reservada para o preparo de uma iguaria feita à base de um categoria de peixe muito apreciado pelo régulo e seus grandes.

A MACABRA REFEIÇÃO
O fato marcante na vida do irmão Pedro foi que um de seus parentes balantas, após ingerir certa quantidade de vinho, estando visivelmente embriagado, resolveu atravessar a tabanca dos felupes até o outro lado a fim de visitar outros  balantas que residiam ali. Ao retornar, um felupe escondido no mato o observava. De repente avançou para feri lo, aproveitando-se de que o balanta estava cambaleante. Mesmo embriagado os balantas lhe resistiu usando uma faca o felupe retrocedeu e fugiu, se pondo ao longe. Depois lançou mão de uma cana de bambu com a ponta tipo bisel e perseguiu o balanta, transpassando-o com a lança improvisada. Depois arrastou o homem à beira do rio, lavou o corpo e sobre uma pedra o esquartejou. Chamando outros felupes carregou toda aquela carne para um lugar mais seguro na floresta.
Os balantas preocupados com o sumiço de seu parente se reuniram em bando com mais de cem pessoas entre homens e mulheres e começaram uma busca intensa. Passando por todos os lugares que o balanta passaria, deram com o sangue derramado na clareira onde o felupe o ferira.
Seguiram o rastro de sangue até a pedra onde havia sido realizado o esquartejamento do homem. Não havia mais dúvida. O balanta estava morto. As buscas foram intensificadas. Outros parentes ouvindo o que poderia ter acontecido formavam outros grupos de busca.
Quando menos se esperava ouvi-se gritos na floresta. O balanta fora encontrado. Formou-se um corre-corre até o local de onde vinham os gritos. Chegando lá se depararam com uma cena macabra. O infeliz jazia disposto a assar acima de um enorme braseiro todo despedaçado e espetado em varas que eram girados ocasionalmente. Um grupo, de seis felupes, se revezava na tarefa. Um deles tinha na mão um pedaço de um dos braços da vítima, que com voraz apetite devorava aquela carne “mal passada” e sanguinolenta.
O bando de balantas revoltado com o que via, avançou sobre os felupes para prendê-los. No entanto, dois conseguiram fugir. Os outros quartos, amarrados, foram levados à sua gente.
Ao balanta lhes impuseram uma condição. Que se não apresentassem de imediato os dois fugitivos, a sua tabanca seria incendiada. Imediatamente os dois selvagens foram apresentados. Os prisioneiros se sentaram no chão formando um semicírculo, de modo que um podia ver o outro. Perante representantes das duas tribos, receberam o castigo imposto pelos balantas.
Diante de cada um foram colocados uma cuia cheia de sal e um pedaço do próprio corpo, como uma orelha ou um dedo. Foi dito-lhes que escolhessem entre o comer todo o sal da cuia ou o pedaço de seu próprio corpo. Como seria impossível comer todo aquele sal, foram obrigados a comer pedaços de seus próprios corpos.
Após o castigo os seis felupes  foram amarrados e levados para Bissau, e entregues às autoridades competentes.
Os antropófagos foram presos e posteriormente condenados por um crime tão bárbaro, cuja prática é proibida não só no território guineense como em todo o mundo.

Com lágrimas nos olhos o irmão Pedro levou a igreja a um grande clamor por aquele povo tão bárbaro e hostil. Fez um apelo fervoroso para que alguém de coragem se levantasse e fosse viver entre aquela tribo e lhes pregasse Cristo.

HISTÓRIAS DE BAFATÁ (ENTREVISTANDO RÉGULO OCANTE ZABANI)

ENTREVISTANDO UM REI






“Os povos têm costumes diferentes”.



“Os povos têm costumes diferentes”.

Lembro-me de um homem que conheci na capital da Guiné-Bissau. Ele era natural da Ilha de Pecixe. Possuía trinta e três esposas, fora as amantes. Naquele país o poder de um homem é medido pelo número de esposas que possui. Em 1987 quando morava em Bafatá decidi  entrevistar aquele homem.

Peguei meu gravador. Fui procurá-lo, precisava registrar os detalhes.

As viagens no território guineense eram muito difíceis. Dificílima até, dependendo para aonde se ia quase impossível. 

Muito das vezes o viajante era compelido a jogar-se ao solo, vencido pela exaustão. Se a provisão de alimento e água não fosse suficiente, com certeza teria que provar um cardápio bem diferente do costumeiro.

Quando decidi deixar Bafatá rumo a Ilha de Pecixe, do oeste para o leste do país, já sabia que seria muito difícil. Alguns negativistas chegaram a prever que eu seria devorado pelos enormes crocodilos. Outros relatavam casos de canoas viradas por hipopótamos, justamente no lugar que eu teria que passar.

O desejo de conhecer mais acerca daquele homem interessante, era tão grande que me cegou para as dificuldades que poderia enfrentar. Aliás, era a primeira vez que eu iria entrevistar um rei. Valeria a pena, sim. Quantas vezes eu viajei por

motivos menos importante e arrisquei caminho até alcançar o objetivo.

A primeira etapa, de Bafatá a Bissau, a capital da Guiné, fiz de moto. Tudo correu bem, apesar da carga que me obrigava a parar várias vezes para ajustá-la. Sempre tinha que levar um galão extra de gasolina, outro de água além da barraca, colchonete, panelas, alimentos, roupas, remédios, etc.

Uma vez em Bissau fui até ao Porto das Canoas sondar a

possibilidade de alugar uma para seguir até a Ilha de Pecixe. Encontrei um pequeno grupo de homens, talvez uns oito, e apenas três canoas atracadas. Conversando com alguns sobre a viagem, dois deles se mostraram interessados. Disseram-me que a canoa deles era ótima, que tinham experiência até em mar alto, e que o trajeto era bem conhecido.

Apesar da crise que o país enfrentava com a falta de combustível, eles estavam dispostos a remar. Mesmo assim, afirmavam que a viagem seria rápida. Combinamos então a saída para o dia seguinte, às 5 horas, aproveitando a vazante da maré.

Quando ia me retirando um deles disse-me que eu teria que pagar metade do combinado, caso contrário ele alugaria a canoa para outro que aparecesse. 

E agora, arriscaria ser enganado ou, de perder a viagem tão esperada? Afinal ali somente havia três canoas e eles que se dispuseram em ir até à Ilha de

Pecixe. Paguei então fui para o local onde estava hospedado.

Passei a noite quase toda acordada pensando naquela viagem. No outro dia um amigo holandês me levou em seu Land Rover até próximo ao Porto das Canoas. Deixou-me ali e retornou para sua casa enquanto eu caminhava até o cais. Ao chegar fiquei espantado ao ver uma multidão de mais de seiscentas pessoas e quase cento cinquenta (canoas).

No escuro os homens pareciam todos iguais e as canoas tinham o mesmo formato. O povo andava de um lado para outro, uns puxando cabritos pela corda, outros com porcos nos braços, frangos amarrados pelas pernas pendurados em varas.

As mulheres conduziam enormes cestas na cabeça e crianças amarradas às costas.

Já estava quase desistindo quando ouço alguém chamar.

— Tuga, tuga, vamos que a maré está baixando. A palavra tuga se traduz por colonizador, mas eles a usam para identificar o branco.

Apesar de tudo parecer igual para mim, eu era completamente diferente para todos. Iniciamos a viagem. As primeiras horas da manhã foram muito agradáveis. Assistimos ao nascer do Sol. Foi um espetáculo deslumbrante. Assim que o Sol despontou, por alguns minutos, as águas do mar se coloriram de um vermelho sanguíneo. Soprava uma brisa suave. As gaivotas sobrevoavam a canoa enquanto os

golfinhos a acompanhavam fazendo seus malabarismos. O capitão e seu ajudante que diziam se chamar Paxana e Propana eram filhos do mesmo pai, porém de mães diferentes.

Eles me contaram cada história incrível de quando estiveram na guerra contra os portugueses. Havia na canoa mais quatro rapazes contratados para ajudar no remo. O esforço foi tão grande que sobrou para mim. Tive que remar também. A viagem durou dezesseis horas. O calor, de quarenta a quarenta e cinco graus centígrados, ficou quase insuportável e a umidade do ar chegou aos cem por cento. Fizemos apenas duas paradas.

A primeira parada foi no porto de uma ilhota onde havia algumas famílias de pescadores. Todos estavam completamente nus. Alguns consertavam redes enquanto outros fabricavam canoas de tronco. As moças mexiam nas panelas de barro sobre uma trempe de pedras. As mulheres pilavam grãos.

Uma criança defecou bem próxima a uma mulher que cozinhava algo em seu “fogão” de três pedras. Quando o menino se levantou a mulher, com uma cuia, jogou água em sua mão passando-a no bumbum da criança. Em seguida voltou a mexer a panela com uma colher de pau.

Os companheiros de viagem se embrenharam no mato a procura de vinho para beber. Eu achei uma sombra de um frondoso cajueiro. Quando pensei em descansar ali, um bando de crianças se aproximou, olhando-me atentamente.

Tentei um diálogo, porém sem sucesso. Como elas me olhavam o tempo todo sem falar nada, tentei oferecer um pacotinho de balas que se encontrava em minha bolsa. Ao abaixar para pegar as balas, elas se assustaram, saindo correndo, chorando e

gritando. A única que ficou fez xixi ali mesmo e seus joelhos batiam um no outro.

Quando prosseguimos a viagem contei aos companheiros o que acontecera. Um deles esclareceu o fato. Era costume entre certas mães dizer aos filhos “se você não fizer isto, o branco vem te pegar”.

Fora mais quatro horas de suplício sob um Sol causticante até a próxima parada. Um porto infestado de mosquitos ávidos por sangue. Mal colocamos os pés em terra já nos atacavam. Tínhamos que estar o tempo todo batendo um pano no corpo. Notei que alguns moradores daquele lugar pareciam fantasiados. Fiquei sabendo depois que era apenas uma proteção. Eles fazem um “caldo” com o estrume do gado e o aplicam sobre a pele. Seco, ele forma uma crosta que impede a picada dos mosquitos.

Naquele lugar fomos bem recebidos pelos moradores. Um senhor nos convidou para entrar em sua casa e nos apresentou sua família começando pelas esposas. Uma senhora que aparentava

ter cinquenta anos era a sua primeira mulher e dona da casa.

Depois veio a segunda, a terceira, quarta e por último uma menina

com onze ou doze anos. Esta seria a quinta esposa. Depois foi a vez dos filhos. Ele dizia “este eu pari com aquela… este outro eu pari com esta...” e assim até apresentar todos os seus rebentos.

Ofereceram-nos água fresca. Os homens travaram uma conversa animada em uma língua que eu não entendia nada do que falavam. Fiquei, só, na área da casa, sentado em uma esteira tentando descansar.

Uma menina, cerca de oito anos, chegou perto de mim e estava interessar-se conversar. Ela tinha um penteado, com várias trancinhas, muito bem trabalhado.

Eles observam atentamente os cabelos lisos que são uma grande novidade. Existem pessoas que nunca viram ninguém de cabelos lisos. Como os macacos têm os pelos lisos, para eles nós parecemos macacos. Eu disse-lhe: bo sedu badjudaziña bunitu (você é uma mocinha bonita). Ela respondeu: bo sedu fio (você é feio). Indaguei: Pabia di ke (porquê?). A resposta: bo sedu suma sancho (você parece

um macaco). Ela tinha certa razão.

 

Na terceira etapa da nossa jornada, de fato passamos pelos bandos de crocodilos. Eles pareciam troncos de árvores flutuando sobre a água. Mais adiante uma preguiçosa família de hipopótamos se refrescava deixando apenas o nariz e o fio do lombo fora d’água. Eu mesmo não os teria notado se não, fosse alguém da canoa que gritava... “Pis kabalo, pis kabalo! (peixe-cavalo, peixe

cavalo)”, forma como eles chamam o hipopótamo.

Finalmente chegamos a um porto. Fui informado estarmos na Ilha de Pecixe. Eram 22 horas. Para chegarmos ao vilarejo Fante ainda caminhamos vários quilômetros. Acampamos e ao amanhecer fiquei sabendo que poderia ter feito a viagem por terra, muito mais curta e menos cansativa, pois a ilha de Pexixe ficava não muito distante do continente. 

Cheguei afinal na casa da pessoa quem eu procurava. Fui muito bem recebido e fiquei hospedado ali. Ele se dispôs a contar um pouquinho de sua história.

 

 

O REI SE APRESENTA



Meu nome é Okamte Zabane. Sou natural da Ilha de Pecixe, de família real. Herda-se a “reinança” através da linhagem materna.

Em 19 de outubro de 1955, com apenas 21 anos e sem muita experiência, eu fui consagrado Rei da Ilha de Pecixe. O Estado me concedeu um conselheiro. Seu nome era Manoel da Silva que reuniu certos homens e decidiu que deveria construir uma casa nova com todo o conforto para o régulo Okamte pudesse reinar com toda liberdade. Régulo é o nome que dão ao rei de uma pequena nação.

Não me foi permitido ocupar a antiga casa real. Segundo o conselheiro, a casa estava velha. Eu teria a minha própria casa. Durante todo o tempo da construção também fui proibido de ver o que estava acontecendo.

Somente após pronta tive a permissão de entrar nela. Na sua inauguração, seguida da posse, houve seis dias e seis noites de festa. Havia muita carne, bastante vinho, música e danças.

Comecei então a reinar. Meu poder era absoluto. Eu mesmo compunha as leis que regia aquele povo. Claro que as compunha conforme bem me parecia, facilitando sempre para o lado da casa real. Escolhi a dedo todos os meus ministros, homens feiticeiros de forma comprovada. O critério usado na avaliação e escolha foi observando o grau de maldade de cada um, inclusive o requinte de crueldade usado em suas obras de feitiçarias.

Foram convocados os soldados para a guarda da Ilha. A guarda pessoal do régulo foi composta de jovens denominados “rapazes do régulo”. Eles estariam em toda a parte onde quer que o régulo se encontrasse. Fora e dentro da casa, garantindo assim a segurança pessoal, para que o régulo não fosse molestado.

Os despenseiros também foram chamados. Homens que tinham a obrigação de prover toda sorte de alimentos para a despensa real. Tinham o poder para tomar animais onde quer que eles se encontrassem de modo a não faltar a melhor carne na mesa abastada do régulo. Além do vinho nacional entrando em forma de tributo, os despenseiros mandavam vir da Europa uísque e conhaque da melhor qualidade.

Entre os anos de 1955 a 1966 eu tomei trinta e três mulheres para esposas, além de inúmeras amantes, pois tinha todas as mulheres que eu queria. Era só mandar buscar que elas tinham que vir. Sem contar as jovens que eram levadas pelos próprios pais, que escolhiam entre as mais belas as apresentavam à porta da casa real, onde rogavam para as aceitarem.

Foi construído um pavilhão somente para as mulheres. A cada cinco

compartimentos tinha seu próprio quintal. Havia até uma maternidade para a casa real. Constantemente havia mulheres gestantes as quais eram bem tratadas até a hora do parto. Depois a criança era levada pelos feiticeiros que lhe dariam cuidados especiais, principalmente se fosse do sexo masculino e somente voltava à mãe para a amamentação.

Nenhuma forma de assistência pós-parto era dada para as mulheres, nem alimentá-las era permitido. Ficavam à mercê da própria sorte. Se não fosse a compaixão de seus familiares em levar-lhes algo para comer, pereceriam de fome, com certeza.

Tudo estava em minhas mãos. Cada cerimônia eu decidia tudo. Saíamos para algum “choro” importante (velório ou festa de aniversário de morte de alguém), tomávamos conta da estrada. Todas as esposas, alguns filhos, a guarda pessoal, alguns soldados, os ministros... Enfim, uma multidão.

Quanto ao castigo, muitas vezes eu fazia questão de aplicar pessoalmente, para ter certeza que o infeliz recebeu tudo o que ele merecia. Por vários anos em que eu vivia em toda aquela glória, não conheci ninguém mais poderoso que eu. Sim, eu me sentia o próprio Deus. Nos julgamentos de questões entre o povo, eu dava razão a quem queria, mesmo sabendo que a pessoa estava errada. O que estava certo tinha que sofrer o dano.

Na década de 60 com o movimento para libertação da Guiné do

colonialismo português, por motivos políticos, fui preso por um tempo. Minha vida começou a mudar completamente.

Eu não sentia paz. Minha consciência pesava dia e noite. Lembrava-

Me de quanto sofrimento eu havia causado para aquelas mulheres.

Quantas mãos por mim arrebentadas pelas palmatórias, dos animais

arrebatados de seus donos, muitas vezes eram o único animal que possuía, ainda assim, sem piedade, eu os tirava para não faltar carne na minha mesa.

Lembrava-me das feitiçarias. O quanto delas praticadas ao longo

dos anos no afã de conseguir tudo o que eu desejava. No ano de 1966 eu tive um encontro real com Jesus Cristo, o verdadeiro Rei. Rendi-me totalmente à sua vontade. Ele perdoou todo o meu pecado Transformou a minha vida. Libertou-me daquela escravidão em que eu vivia. Somente, então, conheci a verdadeira paz.

Como o meu reinado decadente já estava no final, não me restava

mais poder algum. Minha glória terrena havia passado. Minhas esposas aproveitaram a ocasião e me abandonaram uma a uma. Restou-me apenas uma que teve uma experiência maravilhosa com Deus. Perdoou-me e ficou ao meu lado.

Hoje eu não tenho nada além deste casarão vazio e escuro. Mas

tenho Jesus em minha vida. Gozo a verdadeira paz. Deito e durmo tranquilo. Tenho certeza que um dia terei a verdadeira glória com o Senhor.



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

HISTÓRIAS DE BAFATÁ (JAMAIS VOLTAREI A NÚPS.)


JAMAIS VOLTAREI A NÚPS




Certo dia eu voltava de uma viagem a Ziguinchor, via São Domingos, passando por Ingoré, rumando para São Vicente onde faria a travessia do grande Rio Cacheu. Ali tinha que usar uma balsa para assim ganhar o caminho de volta a Bafatá. Ziguinchor é a segunda cidade mais importante do Senegal, país colonizado pelos franceses. Esta cidade fica na região do Casamance, ao sul do país. Além da fronteira, a primeira cidade guineense é São Domingos. A cada seis semanas íamos a Ziguinchor, pois tínhamos duas filhas, a Márcia e a Luciane que estudavam lá em regime interno na Bourofaye Cristian School. Além de passar o fim-de semana com as filhas, ainda nos províamos de certos alimentos não encontrados na Guiné. Naquele dia eu vinha só, dirigindo o Volvo da missão em que trabalhava. Aquele carro havia sido doado pelo Exército da Suécia. Foi de grande ajuda para todos, pois possuía quatro pneus lameiros, tração nas quatro rodas e motor a diesel. Era um ótimo carro para aquelas estradas, péssimas, principalmente quando elas terminavam. Abria seu próprio caminho no mato e seguia em frente. Quando sai de Ingoré rumo ao porto da balsa, próximo a um vilarejo de nome Antotinha, de repente surge no meio da estrada saindo do mato uma jovem senhora que balançando os braços desesperada fazia sinal para que parasse. Como ela não tinha nenhuma carga, pois é quase impossível imaginar uma mulher africana sem uma carga; pensei logo que se tratava de um acidente, um filho doente talvez. Ela se aproximou rogando encarecidamente que a levasse para longe dali. Aí eu fiquei encabulado. Achei que ela havia matado alguém e por isso precisava fugir dali. Não querendo me comprometer, pedi-lhe que me contasse a verdade, o que ela tinha feito de tão grave para fugir assim. Ela me disse que nada havia feito, mas que seu homem a procurava para matá-la. Ele não sabia onde ela estava, porém mais cedo ou mais tarde ele a descobriria, daí a necessidade de ganhar tempo, fugir dali, informou a tal mulher. Deixei que ela entrasse no carro como pensei em deixá-la no porto da balsa que estava bem próximo. Ali ela estaria segura, pois havia sempre muita gente. Como ficou sabendo que eu era de Bafatá, a mulher disse que tinha alguns conhecidos ali e que há muito não os via. Pediu-me que a levasse até lá, onde começaria uma nova vida e dificilmente seria encontrada. Concordei e no caminho me contou detalhadamente a sua história. Ela se chamava Segunda (certamente por ter nascido numa segunda-feira). Tinha vinte e dois anos. Não tinha filhos e era da raça Balantas. Viveu na região de São Vicente cerca de doze anos com um grupo de Balantas que habitava ali. Aos dez anos fugiu da sua terra para não casar com o homem a qual havia sido prometida. Na tribo Balantas, dizia ela, a criança do sexo feminino assim que nasce já é dada em casamento. Segundo sua mãe, quando estava grávida, principalmente depois do oitavo mês, um homem amigo de seu pai, vivia rondando por ali sempre em volta da casa puxando assunto para demorar um pouco mais. Esse homem tinha na época cinqüenta e oito anos, casado com quatro mulheres e um bando de filhos. No dia que sua mãe entrou em trabalho de parto, o homem estava ali por perto. Quando nasceu a criança e a parteira anunciou ser uma menina, o homem gritou na área da casa "É minha prometida, é minha prometida". O pai aceitou, é claro. Além de ser um costume da tribo, é apenas uma menina e menina não tem valor algum. O quanto antes sair de casa melhor. Uma boca a menos para comer. Quando ainda criança, Segunda não entendia porque certo velhote vivia visitando a família. Entre tantas crianças ela era a única que ele achava de fazer gracinhas. Somente bem mais tarde que veio, a saber, que ele era seu futuro esposo. E que os feixes de lenha que às vezes ele deixava no quintal, a raiz da mandioca trazida por ele e o garrafão de vinho, era o dote que ele pagava ao pai para tê-la como esposa. O vinho lembra-se, ele mesmo levava e bebia tudo. Sentado com seu pai conversando e bebendo. Tinha dia que ele bebia tanto que não conseguia levantar-se. Era necessário que os irmãos de seu pai o colocassem em pé, segurando-o até suas pernas firmarem. Depois o deixava e com um leve empurrãozinho ele começava a caminhar até chegar a sua casa. Segunda jamais se esqueceu de um cachimbo fedorento que ele usava. Quando ela sentia o cheiro daquele "canhoto" - como eles chamam o cachimbo -, tinha vontade de sumir dali. Quando completou dez anos as esposas daquele homem a procuraram. 









Queriam instruí-la acerca do futuro casamento. Possivelmente dali dois anos. Ela estaria com doze anos e ele com setenta. Falaram da cerimônia do casamento e que antes fariam um teste para saber se ela ainda era virgem ou não. Usariam duas cabras que permaneceriam amarradas. Uma representava a virgindade, a outra não. A que urinasse primeiro revelaria o resultado. E somente assim prosseguiriam com o ritual. Enquanto Segunda me contava isso e sem prestar-lhe mui ta atenção, lembrei-me de um fato curioso ocorrido nas Ilhas dos Bijagós. Uma vez estava naquela Ilha e conversando com um amigo bijagós, lhe fiz algumas perguntas sobre sua cultura. Ele me disse que não sabia ao certo, mas que conhecia alguém muito entendido, que certamente me daria às explicações. Era um senhor de idade que morava bem perto de onde estávamos. Meu amigo disse-me: - Vamos lá agora a sua casa, pois ele deve estar só. Vi toda sua família descer para a roça de arroz. Assim será mais fácil para ele, dar as explicações. Chegamos a casa daquele senhor. Como meu amigo era íntimo da família, foi logo entrando sem anunciar, e entrei atrás dele. Quando chegamos à sala ele estava sentado em um banquinho de três pernas. No meio de suas coxas estava presa uma menina, talvez com menos de quinze anos com seu rosto encostado no chão e o bumbum para cima. Ele tinha em sua mão um ovo de galinha que tentava introduzir na vagina da jovem. Assim que chegamos, ele a soltou. Ela desapareceu pela porta dos fundos. Ele explicou que estava fazendo o teste da virgindade. Do resultado do teste dependeria o seu casamento ou não com ela. Voltando à história de Segunda. Depois de tudo que viu e ouviu a seu respeito tomou uma decisão. Fugiu de casa sozinha e foi morar na região de São Vicente com aquele grupo de Balantas. Três anos mais tarde ela ficou sabendo, através de amigos, que aquele senhor à quem estava prometida, falecera. Continuou vivendo ali como agregada na casa de uma grande família. Fez muitas amizades. Não tinha o porquê se mudar dali onde ela fora tão bem recebida. Oito anos depois apareceu na vila um forasteiro que iria mudar totalmente sua vida. "Homem de corpo bem feito, no vigor de sua juventude, distribuindo largos sorrisos exibindo sua dentição branca e perfeita. Aquele era o homem de minha vida", disse Segunda. Caída de amor não tinha olhos para mais ninguém. Um sentimento intenso se apoderou dela, mobilizando todas as suas energias e faculdades pessoais. Aquela grande paixão estabeleceu prioridades absolutas na vida e no comportamento de Segunda, ao ponto dela se sentir materialmente inclinada a viver e a agir em função daquele homem. Chegou a deixar de comer. Seus amigos vendo a loucura que Segunda estava prestes a cometer, lhe aconselhavam: "Segunda, tome cuidado. Esse homem não é Balantas, é da raça Felupes. Esta gente não presta. Você irá sofrer muito se ficar com ele". Mas, cega de amor não via nada além de felicidades. Chegava a pensar que seus amigos sentiam inveja dela e por isso queriam atrapalhar. Enfim, já estava perdida. Voltar atrás estava fora de cogitação. Acabou ajuntando-se com aquele homem e foi-lhe sua esposa. Passou duas semanas que lhe pareceram uma eternidade de gozo e felicidade. Pois, aquele homem com seus carinhos e bajulações a levava à glória e ela dizia consigo mesmo, "Realmente sou feliz. Este é de fato o homem da minha vida". De repente ele se dirigiu a ela e disse: "Segunda, gostaria imensamente que você fosse comigo até a minha tabanka, conhecer o meu povo". Ela respondeu: "Eu irei. É justo que eu vá, afinal é sua família. Estamos de favor aqui, quem sabe lá construiremos nossa casa e criaremos nossos filhos...". 







Eles se despediram dos amigos, e empreenderam então a longa viagem. Apesar de ser perto geograficamente, com a dificuldade de transporte e os caminhos precários o casal demorou quase um mês para chegar ao destino. De Apilho, um vilarejo às margens do Rio Cacheu, seguiram a pé pela trilha dentro da floresta até chegarem a uma tabanka por nome Núpis. Lá numa grande clareira estavam dispostas duas fileiras de palhoças, habitações construídas com adobe e coberta de palha. Uma trilha tortuosa levava até um trapiche no Rio Cacheu, feito de sibi, uma palmeira resistente, a mais de quarenta anos, onde de vez em quando algum barco se aventurava atracar à procura de coco, ovos, óleo de palma, etc. Segunda logo percebeu que a recepção não foi nada calorosa. O povo a olhava de soslaio, dizia frases curtas em uma língua desconhecida e apontava para ela "esticando o beiço" em sua direção. Até o homem que ela tanto amava e que ele mesmo muitas vezes lhe havia jurado amor eterno, agora se mostrava hostil, de pouca conversa, distante, evitando-a ao máximo. Tudo começou após uma pequena reunião que aconteceu entre os homens daquela tabanka, assim que chegaram ali. À noite foi realizada uma grande cerimônia que entre o sacrifício e todo o ritual demorou várias horas. Porém, Segunda não foi convidada. Aliás, havia sido proibida de participar. Não devia nem sair da casa naquela noite, lhe advertira o marido. Ao redor de uma fogueira, única fonte de luz em meio daquele mundo de trevas, o povo dançava ao som dos tambores. Sozinha naquele barraco escuro, deitada sobre uma esteira, Segunda meditava. Como era feliz em São Vicente. Como havia sido estúpida não ouvindo os conselhos dos amigos. Chegou a lembrar de sua infância na casa dos pais. Sentiu uma ponta de saudade. Se fosse possível trocaria de situação. Ali estava acontecendo algo muito estranho que ela não conseguia entender e ninguém lhe dava explicações. No dia seguinte seu marido lhe disse: "Vá à casa de Mossó e traga de lá um pedaço de carne e prepare o nosso almoço". Ela saiu em direção à casa de Mossó, que ficava um pouco mais distante das demais. Ao chegar lá observou que sobre um jirau de bambu estava certa quantidade de carne coberta com uma esteira. Lá fora apenas duas crianças entre oito e dez anos, com paus nas mãos estavam a enxotar os urubus que insistiam em pousar no quintal em busca de alimentos. Um pequeno balaio, de tampa, chamou a atenção de Segunda, pelo fato de uma quantidade enorme de moscas voava em sua volta. Para satisfazer sua curiosidade ela se aproximou do balaio e ergueu a tampa para olhar o que continha em seu interior. Por alguns minutos ela ficou petrificada, parecia que o sangue gelava em suas veias. Dentro daquele balaio estava a cabeça de um homem. Segunda não teve mais dúvidas. Aquela carne era humana. Aquele povo era canibal. O sacrifício da noite anterior, a festa, a proibição de ela sair de casa. Tudo se encaixava. Retornando para casa disse ao marido que não havia nenhuma carne. Ele apenas a observou atentamente. Seria aquilo um teste? Teria sido reprovada? O jeito seria aguardar. O tempo diria. Mais tarde outra reunião foi convocada com todos os homens da tabanka. Segunda andava de um lado para o outro tentando disfarçar o pavor que estava sentindo. Quando de repente algo aconteceu. Entre as pessoas que andavam por ali, reconheceu um rosto amigo. Era um balantas caçador que viveu um tempo em São Vicente e a conhecia muito bem. "Então, o que fazes aqui?" Segunda indagou ao seu amigo. Estou há três anos em uma tabanka de balantas a alguns quilômetros daqui. Sou caçador e estou à procura de alguns serviços. "E você, que faz aqui?" lhe perguntou o caçador. Segunda revelou que estava casada com um felupes há quase dois meses. Segunda percebeu que o semblante de seu amigo mudara. Ele se aproximou de seus ouvidos e lhe disse: "Vou te contar um segredo. Este povo é canibal". Ela disse que já descobrira isso. "Então vou lhe contar algo mais atemorizante. Na reunião desta tarde ficou decidido que esta noite eles lhe matarão e comerão a sua carne". Segunda ficou triste. Sabia desde então que dificilmente conseguiria escapar dali, porém seu amigo lhe informou da existência de um barco encalhado no Cacheu, aguardando a subida da maré para retornar às águas que lhe permitirão navegar. O amigo lhe disse: - Eu virei até a sua casa e ficarei conversando com o povo. Enquanto isso, discretamente, você amarre em minha bicicleta o mínimo de carga que você tiver... As águas deverão subir por volta das cinco horas da tarde. Ao meu sinal você se oferece para me acompanhar na saída, e eu te ajudarei a fugir. O plano correu perfeitamente bem. Próximo das 17 horas o balantas olhou pausadamente para Segunda e disse para o povo da casa: - Bom, tenho que ir. Já está ficando tarde. A moça imediatamente disse: - Eu lhe acompanharei até à saída. E ambos saíram caminhando devagarzinho. Na primeira curva da trilha os dois montaram a bicicleta e pedalando rapidamente alcançaram o local onde o barco estava. Dentro de segundos os balantas transpuseram o trapiche e se jogaram dentro do barco. Em poucas palavras o caçador explicou e rogou aos barqueiros que salvassem aquela mulher. Eles a esconderam atrás de uma pilha de sacos de coco e antes que o barco zarpasse, surgiu à margem do Cacheu cerca de vinte ou trinta felupes, todos armados com lanças, arcos e flechas, e instavam com o caçador, querendo a todo custo a mulher que havia fugido. O balantas insistia com eles que ela havia voltado desde a curva do caminho, e que estava ali apenas para mandar um recado para alguém em São Vicente. A insistência dos felupes foi tanta que dois deles adentraram ao barco e se puseram a procurar por Segunda. Ao se aproximarem do local onde ela estava escondida, o capitão do barco lhes avisou... Ali tinham sacos com ovos e se fossem quebrados eles pagariam o prejuízo com a vida. Vários marinheiros surgiram e eles saíram da embarcação. O motor roncou. O barco ganhou o leito mais profundo do Rio Cacheu e tomou rumo de São Vicente, sob uma chuva de flechas. Os marinheiros fecharam as escotilhas e seguiram viagem rio acima, chegando ao seu destino, na outra banda do Cacheu, já tarde da noite. Segunda desceu do barco. Assustada e transtornada com tudo. Seguiu correndo estrada à fora, rumo ao vilarejo de Antotinha. Quando o Sol raiou, ela estava exausta, com sede e fome. Escondeu-se no mato, ficando a espera de uma oportunidade para escapar de uma vez dali. Foi quando afinal e providencialmente eu passava por ali. No caminho, eu vendo todo aquele desespero, a falta de paz naquela alma, logo lhe apresentei Jesus Cristo, o Salvador. Deus lhe abriu o entendimento e ela aceitou o Senhor como o seu único e suficiente Salvador. Vi rolar daqueles olhos outrora tristes, duas lágrimas de gozo e de paz. Porque Jesus lhe havia perdoado todos os seus pecados e lhe dado segurança e esperança. Chegando a Bafatá reunimos os cooperadores da Igreja e expus o acontecido. A nova irmã foi levada para ser hóspede de uma mulher balantas que era cristã e membro da Igreja em Bafatá. Ainda boquiaberto com tudo que havia ouvido, os irmãos cooperadores disseram que apesar da proibição do Estado da punição empregada, ainda existiam grupos isolados na selva que praticavam o canibalismo. O diácono Pedro, nosso cooperador, me disse: - Irmão, eu sou natural de São Vicente. Já vivi em Apilho e outras tabankas daquela região. Posso confirmar, inclusive, existem casos que eu mesmo presenciei. Naquela região vivem além de grupos balantas, os kassangas e mais dois tipos diferentes de felupes. Os que são canibais e os que não são. Convidei o irmão Pedro para pregar no culto da irmandade no domingo, e dar testemunho de casos de sacrifícios humanos seguidos de canibalismo, para sensibilizar a Igreja e despertar o povo para combater, com a Palavra de Deus, essa barbárie.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

HISTÓRIAS DE BAFATÁ (CASA DE PASTO)

RESTAURANTE EXCLUSIVO


Certo dia após retornar da aldeia fula, fiquei lembrando do primeiro dia em que coloquei os pés no chão bafatense. Havia ido até lá acompanhado de alguns irmãos guineenses que residiam na capital. Levamos conosco panfletos com porções bíblicas e mensagens nos dialetos papel, balanta, fula e mandinga.
Nosso objetivo era apenas “espiar à terra”. Alguns colegas brancos já haviam tentado nos desencorajarmos. Um disse: “Bafatá é uma cidade completamente dominada pela feitiçaria. Só em chegar lá se sente a grande opressão”. Outro dizia: “Já houve tentativa de implantar a igreja naquela região por duas vezes, porém sem sucesso algum. Dois casais enviados para lá e em menos de quinze dias fugiram amedrontados”(...)
Um terceiro irmão me disse que a palavra Bafatá significa Grande “Irã” e notáveis bruxarias eram praticadas ali tanto pelos “djambcoses” feiticeiros dos animistas como pelos “mouros” feiticeiros dos muçulmanos. Bem, ali estávamos com uma bolsa cheia de panfletos e o coração transbordando de desejos de colher muitos “frutos” naquela terra.
Aproveitando o movimento de pessoas na feira, arrisquei um discurso improvisado tentando explicar o motivo de nossa visita. Falei em português enquanto os irmãos traduziam para a língua creola e para o dialeto balanta.
Começamos então a distribuição da literatura. Fiquei espantado ao ver o grande interesse do povo pelos folhetos. Alguns tentavam pegar das mãos de outros. A maioria deles, quando conseguia apanhar algum panfleto, colocava sob a camisa e corria para longe onde com carinho desamassava o papel e punha-se a ler cuidadosamente.
Foram distribuídos milhares de folhetos naquele dia. Eu confesso que não acreditava muito no que acabara de ver. Julguei que todo aquele interesse seria apenas pelo fato de ter sido distribuído gratuitamente, pois o país vivia praticamente de doações. E aquilo era mais uma doação, pensava eu.
Só dois anos mais tarde a igreja já era uma realidade viva em Bafatá. Os jovens estavam testemunhando como eles haviam encontrado com Cristo porque se consideravam salvos. Pelo menos três deles fizeram alusão àquele dia da entrega dos folhetos. Um deles foi ainda mais específico e disse que naquele dia ele me viu falando na feira e pensou consigo mesmo: se este branco deixou a sua terra cheia de conforto e coisas bonitas e veio para este ermo do mundo, é porque este Jesus que ele fala é verdadeiro. E naquele mesmo dia ele se converteu a Cristo.
Quando ouvi isto, chorei e pedi perdão a Deus pela minha incredulidade.
Após a entrega da literatura naquele primeiro dia, voltamos a capital. Passamos a traçar planos para invadir o reduto dos famosos feiticeiros e seus Irãs amedrontadores, e libertar aquele povo da escuridão em que vivia.
Deus falou-nos muito naquela época em Provérbios 24:11. “Livra os que estão destinados à morte, e os que são levados para a matança se os puderes retirar”.
Voltamos a Bafatá e arrendamos uma casa. Ela era feita de lama e coberta com chapas de zinco. Com permissão do senhorio iniciamos uma pequena reforma e adaptações para torná-la mais habitável.
Durante o tempo em que durou a reforma eu vinha de Bissau todas as semanas com três rapazes crentes para ajudar no trabalho da casa. Eu mesmo cozinhava para nós, pois ali não havia restaurante devido à crise que o país enfrentava no pós-guerra. Existiam vários prédios com fachada escrita Restaurante ou Casa de Pasto, mostrando certas regalias do tempo da Guiné portuguesa.
Um dia desci à feira para comprar peixes e tomates para o almoço. Passando por certa rua vi um desses restaurantes com as portas abertas, várias mesas com toalhas brancas e um movimento de rapazes na calçada defronte ao restaurante.
Não perguntei nada a ninguém, nem comprei os peixes. Voltei imediatamente para a casa e disse aos rapazes: tomem banho, mudem de roupas, pois hoje vamos comer no restaurante.
Eles ficaram um pouco assustados, porém, acreditaram em mim. Tudo pronto partimos então para almoçar fora. Quando paramos o carro perto do restaurante e começamos a caminhar naquela direção, notamos certo alvoroço entre os rapazes que ali se encontravam. Um entrou rapidamente voltando logo acompanhado depois  de um senhor com jeito de chefe que falando português veio nos receber.
Eu disse-lhe: queremos almoçar. Ele: pois não. Conduziu-nos a uma mesa que pelo aspecto parecia ser a principal. Tomamos nossos lugares. Imediatamente todos os rapazes também ocuparam os demais lugares em outras mesas e o almoço foi servido.
Tivemos peixe com caldo de mancarra, uma comida africana muito apreciada. Mancarra se traduz por amendoim da língua portuguesa arcaica sendo usada na língua creola. O cozinheiro usa um peixe, de boa espécie, cortado em postas, tempera a gosto e leva ao fogo para cozinhar com água cobrindo as postas. Quando está quase cozido acrescenta o amendoim torrado e moído feito pasta que transforma a água em um caldo grosso também temperado com suco de limão. É servido com arroz branco.
O almoço estava realmente ótimo, mas quase no final um dos irmãos sem querer ouviu a conversa na outra mesa e me disse: — Estes rapazes são do time de futebol da cidade e eles estão te confundindo com um treinador português vindo de Lisboa para dar uma palestra para eles.
— Bom, agora é tarde para retroceder. Tivemos a sorte de chegarmos antes que o português.
Dirigi-me ao balcão, pedi para pagar às quatro refeições. O senhor andou de um lado para outro, fez alguns cálculos e finalmente conseguimos pagar e voltar para casa. No caminho os irmãos me disseram que os restaurantes somente funcionam sob encomenda!
Terminada a reforma mudamos para Bafatá. Foi muito difícil no início, mas diariamente saíamos para levar a Palavra. “Salmos 126:6 — Aquele que levar a preciosa semente, andando e chorando, voltará sem dúvida com alegria, trazendo consigo os seus molhos”.