quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

HISTÓRIAS DE BAFATÁ (O PEQUENO PASTOR)

O PEQUENO PASTOR



Naquela manhã ensolarada, de domingo, o culto da irmandade começou com muita unção do céu. O louvor cantado em várias línguas havia levado a igreja a um êxtase glorioso.
Duas pessoas caíram ao chão se rendendo totalmente ao Senhor Jesus. Outros dançavam de gozo e poder do Espírito.
A igreja nascida no chão do povo muçulmano era composta quase cem por cento de povos vindos do animismo. A maioria era balanta seguido dos papéis, manjacos, mansoancas, bijagós e uma irmã fula. Várias nações que Deus, no seu amor, as transformou em uma só tribo, a do Senhor Jesus.
O irmão diácono Pedro Diniz pregou naquele dia na língua creola. Baseado em II Crônicas 28: 3 — “Também queimou incenso no vale do filho de Hinom, e queimou a seus filhos no fogo conforme as abominações dos gentios...”.
Discorreu brilhantemente aplicando o texto à realidade africana. Testemunhou o que Deus fez na vida da irmã Segunda. Desde o seu malfadado casamento até a fuga providencial e posteriormente a sua salvação em Cristo. E o povo jubilava, brados de aleluias e glórias a Deus ressoavam a todo o momento.
Pedro Diniz fora um “bakiadur” — uma categoria de pastor de vacas — na sua infância. Vivia correndo atrás de ídolos, tentando descobrir uma maneira de herdar um grande “Irã” — nome dado a ídolos. Seu pai sentia até orgulho dele por causa disto. Vivia falando: “Um dia ainda te levo na Kobiana”, lugar famoso naquela época pelos seus cultos aos “Irãs”.
Certo dia o irmão Pedro Diniz fora ferido pelo estilhaço de uma mina e levado para Apilho nas margens do Cacheu, para recuperar dos ferimentos em casa de um parente. Na época da guerra as famílias viviam constantemente se mudando de região para se protegerem.
Apesar de ser advertido severamente pelo primo, de que não deveria forma alguma  se relacionar com os vizinhos felupes, pois eles são: “Nhamidur di pekadur” (a expressão creola quer dizer “comedor de pecadores”), dizia seu primo. Pekadur foi introduzida na língua creola pelos padres portugueses que, na época da colônia, dizia-lhes que todos eram pecadores, não importando a tribo ou a cor.
O menino Pedro recuperou de seus ferimentos e voltou à lida de bakiadur. Apesar de já saber que os felupes eram canibais, Pedro para vencer a grande solidão que sentia no campo, arriscava, ocasionalmente, amizades com baquiadores felupes. Durante as longas horas do dia em que os pequenos pastores passavam juntos, seguindo o gado das famílias, havia muitas trocas de conhecimentos e segredos culturais. A afinidade entre meninos de raças diferentes foi se tornando cada dia mais estreita, a ponto de muitas vezes Pedro se passar por menino felupes.
Os locais consagrados ao sacrifício e culto aos “Irãs” felupes, estavam espalhados em vários pontos da floresta. Estes locais eram muitos bem guardados por vigias para evitar a penetração de intrusos.
Mas a curiosidade dos “baquiadores” era tamanha a ponto de espreitar dias a fio até aproveitar um descuido do vigia, quando penetravam então  no recinto para observar o que de tão importante era guardado ali.
Pedro nos informou que além da tenda, confeccionada de tecido vermelho, para proteger o “Irã”, havia vários objetos que eram usados na hora da cerimônia, mas o que mais  chamava a atenção eram os ossos da parte craniana de humanos que os sacerdotes (feiticeiros) usavam para beber vinho como se fossem taças.
O “Irã” pode ser qualquer coisa desde que consagrado para aquele fim. É confeccionado com palha, pedra, madeira, chifre, carranca, etc. O importante é manter o máximo de respeito por ele e ele possuir seu guardador que irá transferir a guarda em herança a um parente que se mostra com vocação para aquele serviço.
Certo dia, movido pela curiosidade, eles foram chegando com seus rebanhos, devagar como quem não quer nada, até às cercanias da casa grande onde residia o régulo felupes. Observaram que a casa além de grande era construída longe do rio. No entanto, uma grande vala, aberta manualmente, ligava o interior da casa real ao leito do rio. Relatavam os meninos felupes de vez ou outra que havia um entra e sai suspeito de canoas e que eles nunca haviam sabido que se tratava. Alguns testemunharam que garotos como eles que haviam entrado naquela casa uma vez, nunca mais foram vistos.
Mais tarde quando Pedro já estava adulto, ele soube que se um “Irã” da tribo felupes exigisse um sacrifício humano, e se a pessoa não tivesse nenhum estrangeiro ou intruso aventureiro a quem pudesse lançar mão, era obrigado a oferecer um de seus próprios filhos.
A vítima era levada à casa real, e de lá saía de canoa para o altar e após imolado, ao término da cerimônia, voltava de canoa em forma de carne para o banquete real. A gordura que houvesse na carne era
separada, defumada e reservada para o preparo de uma iguaria feita à base de um categoria de peixe muito apreciado pelo régulo e seus grandes.

A MACABRA REFEIÇÃO
O fato marcante na vida do irmão Pedro foi que um de seus parentes balantas, após ingerir certa quantidade de vinho, estando visivelmente embriagado, resolveu atravessar a tabanca dos felupes até o outro lado a fim de visitar outros  balantas que residiam ali. Ao retornar, um felupe escondido no mato o observava. De repente avançou para feri lo, aproveitando-se de que o balanta estava cambaleante. Mesmo embriagado os balantas lhe resistiu usando uma faca o felupe retrocedeu e fugiu, se pondo ao longe. Depois lançou mão de uma cana de bambu com a ponta tipo bisel e perseguiu o balanta, transpassando-o com a lança improvisada. Depois arrastou o homem à beira do rio, lavou o corpo e sobre uma pedra o esquartejou. Chamando outros felupes carregou toda aquela carne para um lugar mais seguro na floresta.
Os balantas preocupados com o sumiço de seu parente se reuniram em bando com mais de cem pessoas entre homens e mulheres e começaram uma busca intensa. Passando por todos os lugares que o balanta passaria, deram com o sangue derramado na clareira onde o felupe o ferira.
Seguiram o rastro de sangue até a pedra onde havia sido realizado o esquartejamento do homem. Não havia mais dúvida. O balanta estava morto. As buscas foram intensificadas. Outros parentes ouvindo o que poderia ter acontecido formavam outros grupos de busca.
Quando menos se esperava ouvi-se gritos na floresta. O balanta fora encontrado. Formou-se um corre-corre até o local de onde vinham os gritos. Chegando lá se depararam com uma cena macabra. O infeliz jazia disposto a assar acima de um enorme braseiro todo despedaçado e espetado em varas que eram girados ocasionalmente. Um grupo, de seis felupes, se revezava na tarefa. Um deles tinha na mão um pedaço de um dos braços da vítima, que com voraz apetite devorava aquela carne “mal passada” e sanguinolenta.
O bando de balantas revoltado com o que via, avançou sobre os felupes para prendê-los. No entanto, dois conseguiram fugir. Os outros quartos, amarrados, foram levados à sua gente.
Ao balanta lhes impuseram uma condição. Que se não apresentassem de imediato os dois fugitivos, a sua tabanca seria incendiada. Imediatamente os dois selvagens foram apresentados. Os prisioneiros se sentaram no chão formando um semicírculo, de modo que um podia ver o outro. Perante representantes das duas tribos, receberam o castigo imposto pelos balantas.
Diante de cada um foram colocados uma cuia cheia de sal e um pedaço do próprio corpo, como uma orelha ou um dedo. Foi dito-lhes que escolhessem entre o comer todo o sal da cuia ou o pedaço de seu próprio corpo. Como seria impossível comer todo aquele sal, foram obrigados a comer pedaços de seus próprios corpos.
Após o castigo os seis felupes  foram amarrados e levados para Bissau, e entregues às autoridades competentes.
Os antropófagos foram presos e posteriormente condenados por um crime tão bárbaro, cuja prática é proibida não só no território guineense como em todo o mundo.

Com lágrimas nos olhos o irmão Pedro levou a igreja a um grande clamor por aquele povo tão bárbaro e hostil. Fez um apelo fervoroso para que alguém de coragem se levantasse e fosse viver entre aquela tribo e lhes pregasse Cristo.

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