RESTAURANTE EXCLUSIVO
Certo dia após retornar da aldeia fula, fiquei lembrando do primeiro dia em que coloquei os pés no chão bafatense. Havia ido até lá acompanhado de alguns irmãos guineenses que residiam na capital. Levamos conosco panfletos com porções bíblicas e mensagens nos dialetos papel, balanta, fula e mandinga.
Nosso objetivo era apenas “espiar à terra”. Alguns colegas brancos já haviam tentado nos desencorajarmos. Um disse: “Bafatá é uma cidade completamente dominada pela feitiçaria. Só em chegar lá se sente a grande opressão”. Outro dizia: “Já houve tentativa de implantar a igreja naquela região por duas vezes, porém sem sucesso algum. Dois casais enviados para lá e em menos de quinze dias fugiram amedrontados”(...)
Um terceiro irmão me disse que a palavra Bafatá significa Grande “Irã” e notáveis bruxarias eram praticadas ali tanto pelos “djambcoses” feiticeiros dos animistas como pelos “mouros” feiticeiros dos muçulmanos. Bem, ali estávamos com uma bolsa cheia de panfletos e o coração transbordando de desejos de colher muitos “frutos” naquela terra.
Aproveitando o movimento de pessoas na feira, arrisquei um discurso improvisado tentando explicar o motivo de nossa visita. Falei em português enquanto os irmãos traduziam para a língua creola e para o dialeto balanta.
Começamos então a distribuição da literatura. Fiquei espantado ao ver o grande interesse do povo pelos folhetos. Alguns tentavam pegar das mãos de outros. A maioria deles, quando conseguia apanhar algum panfleto, colocava sob a camisa e corria para longe onde com carinho desamassava o papel e punha-se a ler cuidadosamente.
Foram distribuídos milhares de folhetos naquele dia. Eu confesso que não acreditava muito no que acabara de ver. Julguei que todo aquele interesse seria apenas pelo fato de ter sido distribuído gratuitamente, pois o país vivia praticamente de doações. E aquilo era mais uma doação, pensava eu.
Só dois anos mais tarde a igreja já era uma realidade viva em Bafatá. Os jovens estavam testemunhando como eles haviam encontrado com Cristo porque se consideravam salvos. Pelo menos três deles fizeram alusão àquele dia da entrega dos folhetos. Um deles foi ainda mais específico e disse que naquele dia ele me viu falando na feira e pensou consigo mesmo: se este branco deixou a sua terra cheia de conforto e coisas bonitas e veio para este ermo do mundo, é porque este Jesus que ele fala é verdadeiro. E naquele mesmo dia ele se converteu a Cristo.
Quando ouvi isto, chorei e pedi perdão a Deus pela minha incredulidade.
Após a entrega da literatura naquele primeiro dia, voltamos a capital. Passamos a traçar planos para invadir o reduto dos famosos feiticeiros e seus Irãs amedrontadores, e libertar aquele povo da escuridão em que vivia.
Deus falou-nos muito naquela época em Provérbios 24:11. “Livra os que estão destinados à morte, e os que são levados para a matança se os puderes retirar”.
Voltamos a Bafatá e arrendamos uma casa. Ela era feita de lama e coberta com chapas de zinco. Com permissão do senhorio iniciamos uma pequena reforma e adaptações para torná-la mais habitável.
Durante o tempo em que durou a reforma eu vinha de Bissau todas as semanas com três rapazes crentes para ajudar no trabalho da casa. Eu mesmo cozinhava para nós, pois ali não havia restaurante devido à crise que o país enfrentava no pós-guerra. Existiam vários prédios com fachada escrita Restaurante ou Casa de Pasto, mostrando certas regalias do tempo da Guiné portuguesa.
Um dia desci à feira para comprar peixes e tomates para o almoço. Passando por certa rua vi um desses restaurantes com as portas abertas, várias mesas com toalhas brancas e um movimento de rapazes na calçada defronte ao restaurante.
Não perguntei nada a ninguém, nem comprei os peixes. Voltei imediatamente para a casa e disse aos rapazes: tomem banho, mudem de roupas, pois hoje vamos comer no restaurante.
Eles ficaram um pouco assustados, porém, acreditaram em mim. Tudo pronto partimos então para almoçar fora. Quando paramos o carro perto do restaurante e começamos a caminhar naquela direção, notamos certo alvoroço entre os rapazes que ali se encontravam. Um entrou rapidamente voltando logo acompanhado depois de um senhor com jeito de chefe que falando português veio nos receber.
Eu disse-lhe: queremos almoçar. Ele: pois não. Conduziu-nos a uma mesa que pelo aspecto parecia ser a principal. Tomamos nossos lugares. Imediatamente todos os rapazes também ocuparam os demais lugares em outras mesas e o almoço foi servido.
Tivemos peixe com caldo de mancarra, uma comida africana muito apreciada. Mancarra se traduz por amendoim da língua portuguesa arcaica sendo usada na língua creola. O cozinheiro usa um peixe, de boa espécie, cortado em postas, tempera a gosto e leva ao fogo para cozinhar com água cobrindo as postas. Quando está quase cozido acrescenta o amendoim torrado e moído feito pasta que transforma a água em um caldo grosso também temperado com suco de limão. É servido com arroz branco.
O almoço estava realmente ótimo, mas quase no final um dos irmãos sem querer ouviu a conversa na outra mesa e me disse: — Estes rapazes são do time de futebol da cidade e eles estão te confundindo com um treinador português vindo de Lisboa para dar uma palestra para eles.
— Bom, agora é tarde para retroceder. Tivemos a sorte de chegarmos antes que o português.
Dirigi-me ao balcão, pedi para pagar às quatro refeições. O senhor andou de um lado para outro, fez alguns cálculos e finalmente conseguimos pagar e voltar para casa. No caminho os irmãos me disseram que os restaurantes somente funcionam sob encomenda!
Terminada a reforma mudamos para Bafatá. Foi muito difícil no início, mas diariamente saíamos para levar a Palavra. “Salmos 126:6 — Aquele que levar a preciosa semente, andando e chorando, voltará sem dúvida com alegria, trazendo consigo os seus molhos”.
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